quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Publicamos a seguir uma entrevista feita ao magnífico maestro Júlio Medaglia:









Primeiramente, quem é J. Medaglia? Uma breve biografia:
Júlio, no início de sua carreira participou de uma orquestra de amadores, e conhece o então oboísta Isaac Karabtchevsky, que o leva para a Escola Livre de Música de São Paulo, criada em 1952 por um dos grandes mentores musicais da época, Hans-Joachim Koellreutter.
No final dos anos 1950, Koellreutter transfere-se para Salvador, no intuito de montar os Seminários de Música da Universidade da Bahia. Júlio Medaglia o acompanha e lá, se aperfeiçoa em regência, inicialmente coral e depois sinfônica. Em Salvador, é convidado pelo Diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg, Artur Hartmann, para estudar regência na Alemanha.
Antes de deixar o país, em São Paulo, Júlio Medaglia ajuda o musicólogo teuto-uruguaio Francisco Curt Lange a divulgar, por meio de concertos, artigos e palestras, a redescoberta de importantes partituras do barroco mineiro.
Enquanto estudava na Europa, Júlio Medaglia também teve aulas de regência sinfônica em Taormina, com Sir John Barbirolli, um dos mais respeitados maestros do século XX. Também participa de cursos ministrados por Stockhausen e Boulez, durante os festivais de música contemporânea de Darmstadt. Em 1965, forma-se, com distinção, pela Hochschule für Musik de Freiburg, em regência sinfônica.
No final dos anos 1960, retorna ao Brasil e participa, com Solano Ribeiro, da organização dos Festivais da Record. Nessa época, participa de movimentos artísticos de vanguarda, entre os quais o da poesia concreta, "oralizando" poemas com os irmãos Campos - Augusto e Haroldo - e Décio Pignatari.
No final de 1967, escreve arranjo para a canção Tropicália, de Caetano Veloso, que marca o início do Tropicalismo.
Em 1969, é convidado, por um grupo de instrumentistas, para dirigir a orquestra Cordas de São Paulo. Com esse conjunto, viaja por várias cidades brasileiras, grava um disco (que inclui a restauração de uma obra de André da Silva Gomes, mestre de capela da cidade de São Paulo do início do século XIX) e faz um programa semanal na TV Cultura, que recebe, entre outros, o Troféu Roquette Pinto.
Nos anos 1970 teve um rápido relacionamento com a cantora Maysa.
Nos anos 1980, dirige, por quatro anos, o Teatro Municipal de São Paulo. Nessa época, além de ministrar cursos sobre trilha sonora na USP e na FAAP, participa no Rio de Janeiro, do "cinema marginal".
Sua participação como autor da trilha sonora e ator do filme O Segredo da Múmia rendeu-lhe os prêmios de "melhor trilha" no Festival de Gramado e de "melhor ator coadjuvante" pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Em 1987, inicia um programa diário na rádio Cultura FM de São Paulo (Pentagrama e, depois, Tema e Variações), trabalho que manteve, ininterruptamente, até 26 de abril de 2011, quando anunciou que deixaria a emissora. "Fui chamado pelo presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, e, antes que me sentasse para conversar, ele logo disse que meu contrato não seria renovado e que eu estava desligado a partir daquele momento". O maestro também responsável pelo programa "Prelúdio", na TV Cultura, que promovia também um concurso de jovens instrumentistas brasileiros, sendo o vencedor premiado com uma bolsa de estudos, por um ano, na Alemanha.
No início dos anos 1990, assume a direção artística do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e, em seguida, a regência titular da orquestra do Teatro Nacional de Brasília. Na mesma época, dirige o Festival de Inverno de Campos do Jordão e participa em grandes espetáculos cênico-musicais, como: Carmina Burana, de Carl Orff; a ópera Aida, de Verdi; a História do Brasil; e a ópera afro-brasileira Lídia de Oxum, de Lindembergue Cardoso e Ildázio Tavares.
No final da década de 1990, monta uma orquestra filarmônica de nível internacional, em plena floresta amazônica.
Atualmente, tem regido, como convidado, dentro e fora do país, e atua em diversos projetos culturais. Além disso, dirige a nova Orquestra Filarmônica Vera Cruz, de São Bernardo do Campo. "Estou me inspirando no que Simon Rattle fez em Birmingham, a prospecção de talentos numa zona industrial, tradicionalmente de pouca atividade cultural. A partir da orquestra, revitalizou toda uma cidade. É um projeto bacana de São Bernardo, que pretende instalar um teatro para a gente nos antigos estúdios da Vera Cruz, que abrigará um grande centro cultural.
Ensaísta e colaborador de vários periódicos brasileiros, tem livros publicados como tradutor e autor. É membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Paulista de Letras. .
Em 2015 retorna à TV Cultura para apresentar os programas Prelúdio e Concertos Matinais, atração da Rede Tupi nos anos 1950.
LIVROS PUBLICADOS:
Música Impopular. Global. 2ª Edição
O Som como Parte da Narrativa. Análise Musical. A Orquestra. DVD.
Música, maestro!: do Canto Gregoriano ao Sintetizador. Globo, 2008.
(Fonte: wikipédia.org)

SEGUE A ENTREVISTA FEITA POR Fábio Prikladnicki:

"A música que se ouve no mundo é cada vez pior", diz Júlio Medaglia
Maestro critica as "pseudoduplas caipiras" e gêneros musicais como rock, funk e rap
Ex-aluno dos vanguardistas Boulez e Stockhausen e criador de arranjos de canções do célebre primeiro disco solo de Caetano Veloso, em 1967, o maestro Júlio Medaglia – que participará do projeto Acorde Brasileiro – concedeu a seguinte entrevista por e-mail:
Como se pode alterar o cenário em que as músicas regionais estão distantes da maior parte do público brasileiro?
"Não tem jeito. As culturas populares são frágeis, indefesas e vítimas de manifestações renovadoras mais agressivas. Ninguém mais dança tarantelas em Nápoles, csardas em Budapeste, sarabandas em Madri ou minuetos em Viena. As culturas populares mais ricas e recentes, como o jazz e suas ramificações, a MPB e a infinidade de músicas regionais brasileiras – já que o Brasil tem mais matéria-prima musical do que qualquer outro país, sobretudo as impulsionadas pelos ritmos de origem africana que aqui se multiplicaram –, enfrentam outro “inimigo”, este mais poderoso e perverso: a indústria cultural, a cultura de massa eletrônica. As gravadoras, rádios ou TVs de todo o mundo não possuem mais diretores artísticos, e sim gerentes de marketing. O grande universo pop no mundo saiu da mão dos criadores e está na mão dos produtores, que criam seus monstrengos para serem consumidos e descartados rapidamente.
A grande cultura pop internacional vive mais em função de efeitismos, de pirotecnias superagressivas, como de resto ocorre nas outras linguagens de entretenimento. É só pegar o controle da TV e ficar passando de um canal a outro dos 500 existentes que só se vê explosões, ataques violentos, autos pelos ares, monstros atacando e coisas assim. Na área musical, os subprodutos do rock, que já é música de bárbaros (com as honrosas exceções), o funk, o punk e, mais recentemente, o rap, o hip-hop e os MCs (que nem pretendem ser músicas), caminham ainda mais rapidamente no sentido da imbecilização coletiva.
Não vivemos mais na era das sutilezas e da sensibilidade. Tudo tem que ser "na porrada". Príncipes como Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho; princesas como Dona Ivone Lara; cameristas como João Gilberto ou Jobim; "Fischer-Dieskaus" como Orlando Silva; "Segovias" como Dilermando Reis, Baden (Powell) ou Raphael Rabello estão cada vez mais distantes dessa cultura de massa eletrônica. Poetas como Vinicius (de Moraes), Paulo César Pinheiro ou Adoniran Barbosa não têm mais lugar nos dias de hoje para a frente. Vai levar muito tempo para as novas tecnologias e suas máquinas comerciais voltarem a dialogar com o talento humano e a criatividade – como a imbecilidade deve cansar, isso pode ocorrer um dia... (não sei quando)."
Como se pode reforçar a divulgação de músicas menos conhecidas em um cenário de distribuição pulverizado como o que temos na internet?
"A internet é a maior maravilha inventada pelo homem recentemente. Mas é burra. Toda a Crítica da Razão Pura de Kant está na internet. No entanto, ninguém virou filósofo por causa disso. Se você colocar no YouTube “9ª de Beethoven”, aparecem mil gravações em áudio e vídeo da melhor qualidade. No entanto, a música que se ouve em grande quantidade no mundo, hoje, é cada vez pior. O que provoca a audição, a aquisição do produto musical maravilhosamente industrializado, é o esquema de marketing das gravadoras, das produtoras de música industrializada. As novas gerações estão cada vez mais reféns desses esquemas."
Qual o papel dos professores de música nas escolas? Como tornar a música atraente para as novas gerações – e que tipo de música deve-se apresentar às crianças primeiro?
"Estive mil vezes em Brasília para poder fazer ser votada a lei que torna obrigatório o ensino musical nas escolas. Quando foi aprovada a lei, falei com ministros e secretários de cultura. Não consegui ver nenhuma ideia minha posta em prática. Acho que o banco escolar é a tábua de salvação da sensibilidade musical para as novas gerações. O negócio é fazer o jovem ouvir muita música diferente e de qualidade. Das bandas de pífanos de Caruaru à Quinta de Beethoven, de Edu Lobo a Villa-Lobos, de Benny Goodman a Borghettinho e, a propósito de gaitas, de Chiquinho do Acordeão (gaúcho bravo!), Sivuca e Hermeto (Pascoal) a Toots Thielemans, de Beatles aos Sole Mios do grande cancioneiro napolitano, e assim por diante. Música feita com talento, de qualidade.
Assim, o jovem chega em casa e, ao ouvir as pseudoduplas caipiras (na realidade, bolerões bregas de puteiro de Cais de Porto de quinta categoria) ou os falsos pagodes (que, juntos, não valem uma pausa de uma música do Cartola), vai gritar: "Mamãe, manda prender aqueles caras, que eles estão nos enganando!"
O senhor aprendeu com grandes mestres da chamada música de concerto de vanguarda. Mas essa música contemporânea, em alguns contextos, ainda encontra dificuldade de se afirmar nos programas de concertos de orquestras no Brasil e do Exterior, com algumas exceções. O público ainda é muito nostálgico do romantismo e do classicismo?
"Houve muitos equívocos no século 20. Muita música que se criou, teve efeito sazonal. Foi música de festivais. Pretendiam romper esquemas clássicos, mas não deixaram algo no lugar com a mesma consistência. Vejo hoje filmes da nouvelle vague pelos quais babávamos quando aqui chegaram e hoje são insuportáveis. A peneira do tempo se encarregará de selecionar o que vai ficar ou não. A Sagração da Primavera, de Stravinsky, questionou todo o passado romântico, e vai ser executada até o fim dos tempos."
Na música pop, as novas gerações estão ouvindo cada vez menos álbuns inteiros e cada vez mais faixas isoladas, os singles. Tudo está ficando cada vez mais rápido. De que maneira o senhor acha que isso pode afetar o futuro de manifestações que exigem mais tempo de fruição, como a música de concerto ou diversas formas da música popular?
"Como já respondi anteriormente, o negócio agora é ejaculação precoce. Tudo muito rápido, tudo na base do consuma/descarte. O negócio não é namorar. É ficar uma noite, uma transa sem saber com quem. Bem rapidinho. Bem curto. O iPod contém 1 milhão de títulos, e não alguns poucos de grande qualidade ou emoção. As tecnologias nos ensinam técnicas de avalanches, e não de criatividade ou refinamento. No início do século 20, as máquinas eram grotescas, e a cultura e as artes deslumbrantemente sofisticadas, sutis e surpreendentes. No final do século 20, tudo se inverteu. Os chips e os transistors são incrivelmente sutis e delicados, e a produção cultural partiu para o grotesco. Inverteram-se as bolas. Como sair dessa? Apareça na minha palestra e vamos trocar umas ideias..."
Entrevista disponível no site:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/05/a-musica-que-se-ouve-no-mundo-e-cada-vez-pior-diz-julio-medaglia-4754287.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário