quarta-feira, 7 de outubro de 2015

"A finalidade de toda boa música é afetar a alma."






"Haverá dificuldade em discernir a sutil natureza de uma música, e saber se o seu efeito será benéfico ou destrutivo? A resposta a esse dilema foi posta em nossas mãos dois milênios atrás: 'Vós os conhecereis pelos frutos..."





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Publicamos a seguir uma entrevista feita ao magnífico maestro Júlio Medaglia:









Primeiramente, quem é J. Medaglia? Uma breve biografia:
Júlio, no início de sua carreira participou de uma orquestra de amadores, e conhece o então oboísta Isaac Karabtchevsky, que o leva para a Escola Livre de Música de São Paulo, criada em 1952 por um dos grandes mentores musicais da época, Hans-Joachim Koellreutter.
No final dos anos 1950, Koellreutter transfere-se para Salvador, no intuito de montar os Seminários de Música da Universidade da Bahia. Júlio Medaglia o acompanha e lá, se aperfeiçoa em regência, inicialmente coral e depois sinfônica. Em Salvador, é convidado pelo Diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg, Artur Hartmann, para estudar regência na Alemanha.
Antes de deixar o país, em São Paulo, Júlio Medaglia ajuda o musicólogo teuto-uruguaio Francisco Curt Lange a divulgar, por meio de concertos, artigos e palestras, a redescoberta de importantes partituras do barroco mineiro.
Enquanto estudava na Europa, Júlio Medaglia também teve aulas de regência sinfônica em Taormina, com Sir John Barbirolli, um dos mais respeitados maestros do século XX. Também participa de cursos ministrados por Stockhausen e Boulez, durante os festivais de música contemporânea de Darmstadt. Em 1965, forma-se, com distinção, pela Hochschule für Musik de Freiburg, em regência sinfônica.
No final dos anos 1960, retorna ao Brasil e participa, com Solano Ribeiro, da organização dos Festivais da Record. Nessa época, participa de movimentos artísticos de vanguarda, entre os quais o da poesia concreta, "oralizando" poemas com os irmãos Campos - Augusto e Haroldo - e Décio Pignatari.
No final de 1967, escreve arranjo para a canção Tropicália, de Caetano Veloso, que marca o início do Tropicalismo.
Em 1969, é convidado, por um grupo de instrumentistas, para dirigir a orquestra Cordas de São Paulo. Com esse conjunto, viaja por várias cidades brasileiras, grava um disco (que inclui a restauração de uma obra de André da Silva Gomes, mestre de capela da cidade de São Paulo do início do século XIX) e faz um programa semanal na TV Cultura, que recebe, entre outros, o Troféu Roquette Pinto.
Nos anos 1970 teve um rápido relacionamento com a cantora Maysa.
Nos anos 1980, dirige, por quatro anos, o Teatro Municipal de São Paulo. Nessa época, além de ministrar cursos sobre trilha sonora na USP e na FAAP, participa no Rio de Janeiro, do "cinema marginal".
Sua participação como autor da trilha sonora e ator do filme O Segredo da Múmia rendeu-lhe os prêmios de "melhor trilha" no Festival de Gramado e de "melhor ator coadjuvante" pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Em 1987, inicia um programa diário na rádio Cultura FM de São Paulo (Pentagrama e, depois, Tema e Variações), trabalho que manteve, ininterruptamente, até 26 de abril de 2011, quando anunciou que deixaria a emissora. "Fui chamado pelo presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, e, antes que me sentasse para conversar, ele logo disse que meu contrato não seria renovado e que eu estava desligado a partir daquele momento". O maestro também responsável pelo programa "Prelúdio", na TV Cultura, que promovia também um concurso de jovens instrumentistas brasileiros, sendo o vencedor premiado com uma bolsa de estudos, por um ano, na Alemanha.
No início dos anos 1990, assume a direção artística do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e, em seguida, a regência titular da orquestra do Teatro Nacional de Brasília. Na mesma época, dirige o Festival de Inverno de Campos do Jordão e participa em grandes espetáculos cênico-musicais, como: Carmina Burana, de Carl Orff; a ópera Aida, de Verdi; a História do Brasil; e a ópera afro-brasileira Lídia de Oxum, de Lindembergue Cardoso e Ildázio Tavares.
No final da década de 1990, monta uma orquestra filarmônica de nível internacional, em plena floresta amazônica.
Atualmente, tem regido, como convidado, dentro e fora do país, e atua em diversos projetos culturais. Além disso, dirige a nova Orquestra Filarmônica Vera Cruz, de São Bernardo do Campo. "Estou me inspirando no que Simon Rattle fez em Birmingham, a prospecção de talentos numa zona industrial, tradicionalmente de pouca atividade cultural. A partir da orquestra, revitalizou toda uma cidade. É um projeto bacana de São Bernardo, que pretende instalar um teatro para a gente nos antigos estúdios da Vera Cruz, que abrigará um grande centro cultural.
Ensaísta e colaborador de vários periódicos brasileiros, tem livros publicados como tradutor e autor. É membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Paulista de Letras. .
Em 2015 retorna à TV Cultura para apresentar os programas Prelúdio e Concertos Matinais, atração da Rede Tupi nos anos 1950.
LIVROS PUBLICADOS:
Música Impopular. Global. 2ª Edição
O Som como Parte da Narrativa. Análise Musical. A Orquestra. DVD.
Música, maestro!: do Canto Gregoriano ao Sintetizador. Globo, 2008.
(Fonte: wikipédia.org)

SEGUE A ENTREVISTA FEITA POR Fábio Prikladnicki:

"A música que se ouve no mundo é cada vez pior", diz Júlio Medaglia
Maestro critica as "pseudoduplas caipiras" e gêneros musicais como rock, funk e rap
Ex-aluno dos vanguardistas Boulez e Stockhausen e criador de arranjos de canções do célebre primeiro disco solo de Caetano Veloso, em 1967, o maestro Júlio Medaglia – que participará do projeto Acorde Brasileiro – concedeu a seguinte entrevista por e-mail:
Como se pode alterar o cenário em que as músicas regionais estão distantes da maior parte do público brasileiro?
"Não tem jeito. As culturas populares são frágeis, indefesas e vítimas de manifestações renovadoras mais agressivas. Ninguém mais dança tarantelas em Nápoles, csardas em Budapeste, sarabandas em Madri ou minuetos em Viena. As culturas populares mais ricas e recentes, como o jazz e suas ramificações, a MPB e a infinidade de músicas regionais brasileiras – já que o Brasil tem mais matéria-prima musical do que qualquer outro país, sobretudo as impulsionadas pelos ritmos de origem africana que aqui se multiplicaram –, enfrentam outro “inimigo”, este mais poderoso e perverso: a indústria cultural, a cultura de massa eletrônica. As gravadoras, rádios ou TVs de todo o mundo não possuem mais diretores artísticos, e sim gerentes de marketing. O grande universo pop no mundo saiu da mão dos criadores e está na mão dos produtores, que criam seus monstrengos para serem consumidos e descartados rapidamente.
A grande cultura pop internacional vive mais em função de efeitismos, de pirotecnias superagressivas, como de resto ocorre nas outras linguagens de entretenimento. É só pegar o controle da TV e ficar passando de um canal a outro dos 500 existentes que só se vê explosões, ataques violentos, autos pelos ares, monstros atacando e coisas assim. Na área musical, os subprodutos do rock, que já é música de bárbaros (com as honrosas exceções), o funk, o punk e, mais recentemente, o rap, o hip-hop e os MCs (que nem pretendem ser músicas), caminham ainda mais rapidamente no sentido da imbecilização coletiva.
Não vivemos mais na era das sutilezas e da sensibilidade. Tudo tem que ser "na porrada". Príncipes como Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho; princesas como Dona Ivone Lara; cameristas como João Gilberto ou Jobim; "Fischer-Dieskaus" como Orlando Silva; "Segovias" como Dilermando Reis, Baden (Powell) ou Raphael Rabello estão cada vez mais distantes dessa cultura de massa eletrônica. Poetas como Vinicius (de Moraes), Paulo César Pinheiro ou Adoniran Barbosa não têm mais lugar nos dias de hoje para a frente. Vai levar muito tempo para as novas tecnologias e suas máquinas comerciais voltarem a dialogar com o talento humano e a criatividade – como a imbecilidade deve cansar, isso pode ocorrer um dia... (não sei quando)."
Como se pode reforçar a divulgação de músicas menos conhecidas em um cenário de distribuição pulverizado como o que temos na internet?
"A internet é a maior maravilha inventada pelo homem recentemente. Mas é burra. Toda a Crítica da Razão Pura de Kant está na internet. No entanto, ninguém virou filósofo por causa disso. Se você colocar no YouTube “9ª de Beethoven”, aparecem mil gravações em áudio e vídeo da melhor qualidade. No entanto, a música que se ouve em grande quantidade no mundo, hoje, é cada vez pior. O que provoca a audição, a aquisição do produto musical maravilhosamente industrializado, é o esquema de marketing das gravadoras, das produtoras de música industrializada. As novas gerações estão cada vez mais reféns desses esquemas."
Qual o papel dos professores de música nas escolas? Como tornar a música atraente para as novas gerações – e que tipo de música deve-se apresentar às crianças primeiro?
"Estive mil vezes em Brasília para poder fazer ser votada a lei que torna obrigatório o ensino musical nas escolas. Quando foi aprovada a lei, falei com ministros e secretários de cultura. Não consegui ver nenhuma ideia minha posta em prática. Acho que o banco escolar é a tábua de salvação da sensibilidade musical para as novas gerações. O negócio é fazer o jovem ouvir muita música diferente e de qualidade. Das bandas de pífanos de Caruaru à Quinta de Beethoven, de Edu Lobo a Villa-Lobos, de Benny Goodman a Borghettinho e, a propósito de gaitas, de Chiquinho do Acordeão (gaúcho bravo!), Sivuca e Hermeto (Pascoal) a Toots Thielemans, de Beatles aos Sole Mios do grande cancioneiro napolitano, e assim por diante. Música feita com talento, de qualidade.
Assim, o jovem chega em casa e, ao ouvir as pseudoduplas caipiras (na realidade, bolerões bregas de puteiro de Cais de Porto de quinta categoria) ou os falsos pagodes (que, juntos, não valem uma pausa de uma música do Cartola), vai gritar: "Mamãe, manda prender aqueles caras, que eles estão nos enganando!"
O senhor aprendeu com grandes mestres da chamada música de concerto de vanguarda. Mas essa música contemporânea, em alguns contextos, ainda encontra dificuldade de se afirmar nos programas de concertos de orquestras no Brasil e do Exterior, com algumas exceções. O público ainda é muito nostálgico do romantismo e do classicismo?
"Houve muitos equívocos no século 20. Muita música que se criou, teve efeito sazonal. Foi música de festivais. Pretendiam romper esquemas clássicos, mas não deixaram algo no lugar com a mesma consistência. Vejo hoje filmes da nouvelle vague pelos quais babávamos quando aqui chegaram e hoje são insuportáveis. A peneira do tempo se encarregará de selecionar o que vai ficar ou não. A Sagração da Primavera, de Stravinsky, questionou todo o passado romântico, e vai ser executada até o fim dos tempos."
Na música pop, as novas gerações estão ouvindo cada vez menos álbuns inteiros e cada vez mais faixas isoladas, os singles. Tudo está ficando cada vez mais rápido. De que maneira o senhor acha que isso pode afetar o futuro de manifestações que exigem mais tempo de fruição, como a música de concerto ou diversas formas da música popular?
"Como já respondi anteriormente, o negócio agora é ejaculação precoce. Tudo muito rápido, tudo na base do consuma/descarte. O negócio não é namorar. É ficar uma noite, uma transa sem saber com quem. Bem rapidinho. Bem curto. O iPod contém 1 milhão de títulos, e não alguns poucos de grande qualidade ou emoção. As tecnologias nos ensinam técnicas de avalanches, e não de criatividade ou refinamento. No início do século 20, as máquinas eram grotescas, e a cultura e as artes deslumbrantemente sofisticadas, sutis e surpreendentes. No final do século 20, tudo se inverteu. Os chips e os transistors são incrivelmente sutis e delicados, e a produção cultural partiu para o grotesco. Inverteram-se as bolas. Como sair dessa? Apareça na minha palestra e vamos trocar umas ideias..."
Entrevista disponível no site:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/05/a-musica-que-se-ouve-no-mundo-e-cada-vez-pior-diz-julio-medaglia-4754287.html

RESPOSTA AO FUNK OSTENTAÇÃO (Edu Krieger)


Você ostenta o que não tem
Pra tentar parecer mais feliz
Mas não sabe que pra ser alguém
Tem que agir ao contrário do que você diz
Você pensa que tem liberdade
Exibindo riqueza e poder
Mas não vê que na realidade
O sistema é que lucra usando você
E o sistema tem a cor
Do racismo e da escravidão
Cada vez que você dá valor
À roupinha de marca e à ostentação
A elite burguesa e branca
Que é dona das lojas de grife
Se dá bem, pois você bota banca
Mas é o sistema que aumenta o cacife
Clipe norte-americano
De artista que faz hip hop
Você quer imitar por engano
Pensando que assim vai ganhar mais ibope
É a regra do capitalismo
Eles querem que a gente consuma
Pra vivermos à beira do abismo
A gente pra eles é porra nenhuma
Você pensa que é modelo
Pras crianças da comunidade
Sinto muito, mas devo dizê-lo
Que o que você faz é uma puta maldade
Se o moleque não tem condição
De entrar nesse mundo grã-fino
Isso pode virar frustração
E você vai foder com o pobre menino
Que pra ter um tênis foda
Pode até assaltar um playboy
Pois se fica excluído da moda
Recebe desprezo e isso lhe dói
E as mulheres que dão atenção
Que te cobrem de beijo e afeto
Valem menos do que seu cordão
Pois você trata elas pior que objeto
Quem batalha pra viver
E botar a comida na mesa
De repente te vê na TV
Dirigindo carrão e exibindo riqueza
Ostentando pra ter atenção
E achando que isso é maneiro
Sem saber que essa ostentação
Faz o branco do banco ganhar mais dinheiro
Negro tem que ter poder
Negro tem que ser protagonista
Tem que estar no jornal, na TV
No outdoor e na capa de toda revista
Mas não tem a menor coerência
Ostentar um anel de brilhante
Isso só vai gerar violência
Inveja e recalque no seu semelhante
Que legal sua conquista
Sua história de vida também
Mas seu papo é tão consumista
Que faz de você um artista refém
Dessa pose fajuta e falida
Que só finge aumentar autoestima
Infeliz de quem sobe na vida
E não sabe o que faz quando chega lá em cima

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende."  (Arthur Schopenhauer)



A MÚSICA E SEUS EFEITOS SUTIS NO CORPO DO HOMEM









     Música é uma forma, opção, dentro do mundo desequilibrado que estamos testemunhando, o mundo de Final de Ciclo. É uma opção, relativamente, acessível que temos ao nosso alcance para diminuir nossas tensões e angústias.
Aqueles que têm contato regular com os nossos meios de comunicação acabam descobrindo uma forma de buscar a música adequada ao seu lazer e a sua tentativa de reequilíbrio. Nós temos as emissoras de rádio FM, que transmitem um som relativamente bom, isto é, bom em termos técnicos. Então, é a música um meio relativamente barato. Temos um mercado fonográfico variado e acessível, que nos possibilita a compra de CDs. Até, intuitivamente, acabamos por encontrar o reequilíbrio que vínhamos procurando. Na busca da música, o indivíduo acaba por assistir a um concerto, que acreditamos ser um dos primeiros passos para se conhecer o grande valor que ela encerra, porque, num concerto ao vivo, estabelece-se uma forma de empatia muito grande entre a plateia e o executante. Ao presenciá-lo, pode o indivíduo participar do manancial de vibrações ali geradas, o que vem despertar, dentro de si, um sentimento de prazer elevado, que poderá criar até um vínculo definitivo com a música. Vê, então, o indivíduo, superada dentro de si, aquela tão comum impressão de monotonia e até de sono, característica daqueles que, ainda, não aprenderam a apreciá-la. Isso é um fato muito comum, e nós o testemunhamos muitas vezes. Numa instância final, após assistir àquele concerto, àquela execução, passa o indivíduo a vibrar na mesma sintonia. Começa, então, a valorizar o que já ouviu e passa a buscar uma forma, digamos, mais aprimorada ou racional de direcionar esse prazer, essa sua busca de reequilíbrio, já que é essa a nossa proposta no geral.
Ao falarmos de música, temos de citar, inicialmente, o Som, porque, obviamente, ela nada mais é que um conjunto organizado de Sons. Sabemos que o Universo foi criado através deles. Todas as tradições religiosas e filosóficas estão de pleno acordo quanto a isso. Sabemos que o Eterno expressou o Seu poder criador por meio de vibrações sonoras. Então, todas as Tradições mencionam os Sons Sagrados, que construíram algo, de cima para baixo e se formando nos diversos planos da Natureza, dos mais sutis aos mais grosseiros. A Tradição da Índia, por exemplo, refere-se ao OM, o Som Sagrado, que remonta ao aspecto criador do Supremo Arquiteto. Temos aqui um ensinamento dos VEDAS, mais especificamente dos Katha Upanishad, que vem pautar, filosoficamente, aquilo que pretendemos expressar: “O Bom é uma coisa; o voluptuosamente agradável é outra. Os dois diferem em suas metas, mas ambos estão prontos para ação. Abençoados são os que escolhem o Bom; os que escolhem o voluptuosamente agradável erram o alvo”. Tanto o Bom quanto o agradável se apresentam aos homens. Depois de examiná-los, os sábios distinguem um do outro: “O Sábio prefere o Bom ao agradável; o tolo, levado pelos desejos da carne, prefere o agradável ao Bom”.
Voltando a falar dos Sons criadores nas Tradições, nas Civilizações mais antigas, tudo isso era levado muito em consideração. Como já nos referimos, o OM, na filosofia indiana, e, hoje, na nossa, é o início de tudo. Tudo que existe no Universo advém dessa simples palavrinha: OM. Então,
perguntarão: “Se tudo vem do OM, ao pronunciá-lo, estaríamos criando coisas?”. Realmente, e aí está um grande mistério, um grande segredo, que chamamos o poder do Mantran. É o poder de se pronunciar corretamente o Som, de tal forma, que ele possa criar algo. Aquele que encontrar essa
chave deverá, obviamente, adquirir muito poder. A grande dificuldade é que tal trabalho interno, a Iniciação, é o exercício de uma difícil Magia, que, somente, poucos conseguem dominar. Na Índia, então, tudo o que se referia a Som era feito levando-se em conta a consonância com o OM.
Na China, havia, em correspondência à palavra OM, o Huang-Chuang. Tudo o que se fazia, em termos de Som e Música, estava em consonância com o Huang-Chuang, que, literalmente, significa “sino amarelo”. Toda a manifestação sonora, realizada na China, em épocas passadas, levava isso
em conta. Hoje, com essa confusão, reinante no mundo, tudo mudou. Assim, o indivíduo, para realizar uma composição na antiga China, tinha que ter, em mente, a tonalidade em que se
situava o Huang-Chuang, como um diapasão. Mas como era essa tonalidade? Sabia-se que, sendo o processo evolutivo contínuo e mutável, também, o Huang-Chuang mudava. Tinha, então, a pessoa que se afinizar com esse aspecto universal para realizar a sua obra; se não o fizesse, corria o
risco de entrar em desarmonia consigo mesma e, ainda, através de seu som, podia provocar desequilíbrio no próprio meio em que vivia. O Potencial criador do Eterno é expresso pelos sete tons fundamentais, que, no plano em que vivemos, têm sua manifestação sonora nas conhecidas sete notas musicais. Essa projeção de potencial se faz, então, através das chamadas Hierarquias Criadoras, os Construtores do Universo, os Sete Anjos de Presença da Tradição Cristã. Esse potencial sonoro se
diversifica de tal forma, que todos os aspectos da natureza nada mais são do que o resultado final, no mundo objetivo, de todo esse processo de criação. O Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Brasileira de Eubiose, deixou isso bem claro quando disse: “A evolução jamais se faria se o Verbo proferisse, sempre, as mesmas palavras”. A Bíblia nos diz que Adão nomeou outros seres – nomeou os animais – e esse nomear tem o sentido de emitir um som. O Adão (ou Adam), aí referido, era um ser superior, capaz de nomear e criar. Hoje em dia, esse potencial criador do som tem sido usado em terapias, e, mais adiante, vamos dar alguns exemplos de como isso pode ser feito.
Como já dissemos anteriormente, algumas civilizações mais tradicionais, como a Chinesa e a Indiana, levaram muito em conta tudo isso, a ponto de, no caso da China, um certo imperador destinar a uma espécie de Ministério a função de manter a música de seu país em concordância com o já citado
Huang-Chuang, ou seja, afinada com essa Vibração Divina. Daí, pode imaginar-se o quanto isso deve ter sido importante para o florescimento da Civilização Chinesa.
Aqueles que têm estudado os aspectos mais ocultos da Música chegaram à conclusão de que a decadência das civilizações tem a ver com a da Música. E isso, hoje em dia, é algo muito preocupante, em função do que se ouve por aí. Enfim, num final de Ciclo, nada de muito bom poderia se esperar. Mas, cremos que, se conseguirmos realizar um trabalho geral de equilíbrio, incluindo a Música, poderemos, de uma forma ou outra, evitar que a decadência seja mais drástica.
Os gregos antigos, também, souberam cultuá-la devidamente. Todos os grandes sábios de então entenderam o quanto ela representava para a Civilização Helênica. Platão, quando percebeu a decadência da mesma e, consequentemente, da civilização, disse em “As Leis”: “Néscios, iludiram-se pensando que não havia certo nem errado em Música, a qual seria julgada boa ou má, de acordo com o prazer que proporcionasse. Através da sua obra e da sua teoria, eles infestaram a massa com a presunção de se considerarem juízes adequados. Acontecia que o critério não era a Música, mas uma
reputação de esperteza promíscua e um espírito de transgressão das leis”. Vemos, então, o quanto essa afirmação nos vale, ainda, hoje. Fazendo-se um estudo histórico dos povos e levando-se,
sempre, em consideração esse aspecto, podemos notar que, quando a música dos mesmos tornou-se caótica, o caos passou a repercutir na estrutura social e política, provocando, por assim dizer, o declínio civilizatório desses aludidos povos. Não podemos negar que as diversas crises que hoje sofremos não tiveram suas raízes numa crise musical, visto que a música que hoje se faz é, de um modo geral, francamente decadente. Cremos que essa música só não é mais prejudicial porque seus criadores a fazem, a fazem mal e, poucas vezes, são conscientes. Deu para perceber que a música, quando executada, atinge determinados objetivos: ela pode prejudicar, revolucionar e elevar o indivíduo. Assim, diríamos que encerra três principais propriedades: a elevação espiritual, o animismo sensorial e o hedonismo.
A Elevação Espiritual é o objetivo de todo o processo iniciático, visando ao aprimoramento de nossas faculdades internas e externas, até. O indivíduo, através de um processo global, pode se acercar desse objetivo. Daí, o tão conhecido “Mens sana in corpore sano”. Quanto à elevação espiritual, cremos que está, totalmente, expressa na música de Bach, Beethoven e Wagner, a tríade, que acreditamos se apoiar a Música Ocidental. Através da música desses compositores, podemos ter os elementos auxiliares num processo iniciático. Não queremos, aqui dizer que a música dos demais compositores sejam menos importantes. Queremos deixar claro que, se fizermos uma análise histórica e filosófica da Música Ocidental, podemos concluir que as coisas aconteceram em torno desses três personagens. A Música que fizeram contém elementos que expressam desde a Criação até a Evolução da Humanidade e seu mundo. A de Wagner, por exemplo, fala basicamente do Homem, da sua problemática, sua construção e sua evolução. A obra de Beethoven está mais relacionada com o aspecto cosmogenético de um modo geral, com a construção do Universo. A de Bach está ligada mais à alma, ao aspecto devocional, religioso, ponto de ligação entre o Eterno e nós; é o que, na Doutrina Yoga, chamamos de Bakti. O Animismo é nosso aspecto puramente emocional. É aquele tipo de Música que nos dá unicamente prazer, um prazer, digamos, mais elevado, não unicamente sensual, até agradável de se ouvir. De um modo geral, aí se enquadram as músicas populares bem elaboradas e muitas das chamadas músicas de grandes mestres. Seria um tipo de música descompromissado com um trabalho mais interno, a música popular, contendo muito desse aspecto sensorial. Se ouvirmos, unicamente, esse tipo de música, certamente, teríamos algum prejuízo, principalmente, levando em conta a nossa Iniciação. Devemos deixar bem claro que esse tipo de música não é, de forma alguma, condenável. Se assim fosse, estaríamos, praticamente, condenando as músicas populares do mundo todo. Ocorre que a audição constante dessa música nos impede de conhecermos o lado mais luminoso de nós mesmos. A música é uma forma de energia que, quando bem trabalhada e orientada, pode, realmente, contribuir para nossa caminhada em direção à espiritualização ou à busca de nosso EU mais interno.

REFERÊNCIAS:

Revista Arte Real
TAME, David. O Poder Oculto da Música. Cultrix

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

                        HINO DA INDEPENDÊNCIA



                                          (Pintura em que D. Pedro I realiza execução da peça musical dedicada ao Hino da Independência)
                                                                                    

     Se a arte imita a vida, podemos notar que a história do Hino da Independência foi tão marcada de improviso como a ocasião em que o príncipe regente oficializou o fim dos vínculos que ligavam Brasil a Portugal. No começo do século XIX, o artista, político e livreiro Evaristo da Veiga escreveu os versos de um poema que intitulou como “Hino Constitucional Brasiliense”. Em pouco tempo, os versos ganharam destaque na corte e foram musicados pelo maestro Marcos Antônio da Fonseca Portugal (1760-1830).
     Aluno do maestro, Dom Pedro I já manifestava um grande entusiasmo pelo ramo da música e, após a proclamação da independência, decidiu compor uma nova melodia para a letra musicada por Marcos Antônio. Por meio dessa modificação, tínhamos a oficialização do Hino da Independência. O feito do governante acabou ganhando tanto destaque que, durante alguns anos, Dom Pedro I foi dado como autor exclusivo da letra e da música do hino.
     Abdicando do governo imperial em 1831, observamos que o “Hino da Independência” acabou perdendo prestígio na condição de símbolo nacional. Afinal de contas, vale lembrar que o governo de Dom Pedro I havia sido marcado por diversos problemas que diminuíram o seu prestígio como imperador. De fato, o “Hino da Independência” ficou mais de um século parado no tempo, não sendo executado em solenidades oficiais ou qualquer outro tipo de acontecimento oficial.
     No ano de 1922, data que marcava a comemoração do centenário da independência, o hino foi novamente executado com a melodia criada pelo maestro Marcos Antônio. Somente na década de 1930, graças à ação do ministro Gustavo Capanema, que o Hino da Independência foi finalmente regulamentado em sua forma e autoria. Contando com a ajuda do maestro Heitor Villa-Lobos, a melodia composta por D. Pedro I foi dada como a única a ser utilizada na execução do referido hino.
 

Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

(FONTE: http://www.brasilescola.com/historiab/hinodaindependencia.htm)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Som e Silêncio: Considerações Metafísicas





      O som está em todo Universo! Há quem diga que o silêncio não existe, acrescento que os sons também só existem virtualmente. A seguir, algumas considerações sobre a natureza do som...
Sabemos que som é onda, que os corpos vibram e transmitem sua vibração para o ar (atmosfera). O ouvido humano capta e transmite os sinais de vibração ao cérebro, este interpreta e lhe dá SENTIDO.
     Voltamos aqui a ideia de PERIODICIDADE, desta vez não ligada aos andamentos, pois para que possamos ouvir o que chamamos de nota musical, é necessário que o ouvido ouça uma frequência regular, diferente do que o ouvido interpreta como RUÍDO ou SILÊNCIO. Isto quer dizer que o som é produto de uma sequência rapidíssima e praticamente imperceptível de impulsões e repousos (lógica de propagação de uma onda qualquer). O que ouvimos é a DENSIFICAÇÃO de de um padrão de movimento, ou seja, movimento do ar através da matéria. Desta forma, compreendemos que cada som tem sua própria forma e desenho, que são oscilantes. Isso permite pensarmos o som com um modelo de ESSÊNCIA UNIVERSAL, tal essência está presente em todas culturas musicais e é regida pelo movimento permanente. Podemos aqui fazer um devaneio sobre essa essência: na Bíblia é narrada uma versão da criação do mundo segundo o qual foi criado a partir do VERBO (som primordial) e o verbo era Deus e o verbo (logos) fez-se carne, etc... Nas narrativas antigas da mitologia hindu, o mundo foi criado a partir de um único som (OM), uma frequência inicial que a partir dela todos os outros sons e coisas existentes no universo foram criados sucessivamente (mesma ideia da série harmônica em que as escalas musicais são baseadas). Os indianos pensam a criação do Universo a partir da dança do deus Shiva, um deus que destrói, para que se inicie um novo ciclo da criação, Shiva é um dos aspectos da manifestação do Criador (Brahma). Na China antiga, a ideia do movimento permanente é descrita no círculo do Tao, também conhecido como diagrama de Tei-Gi, este é um círculo incolor e representa o vácuo, ou a tese do Absoluto, dentro contêm os oposto Yang e Yin, tais termos podem ser traduzidos livremente como movimento e repouso, masculino/feminino, som/silêncio, etc.. enfim todos os aspectos da natureza, em suas mais diversas manifestações: matéria e energia em seus estados opostos e ao mesmo tempo COMPLEMENTARES, mesma ideia do DEVIR presente no discurso dos gregos pré-socráticos. No milenar sistema filosófico Yoga, temos uma definição parecida sobre os estados da matéria: os três 'Gunas'  - Sattva, Rajas e Tamas: equilíbrio, movimento e repouso ou inércia - são considerados como as qualidades fundamentais da natureza. Para podermos compreender isso plenamente, temos de examinar a interpretação hindu da criação e da dissolução do universo. Diz-se que de tempos em tempos o universo se dissolve e depois é recriado. Quando ele está em sua fase não-definida, não manifestada, ele permanece em um estado latente no decorrer de um certo período. Durante este tempo, os Gunas encontram-se em um estado de absoluto equilíbrio, e a natureza material, não se manifesta. Enquanto os Gunas permanecem não-definidos, continua indefinido e o universo existe apenas em um estado potencial. Tudo que existe é consciência, o Ser Puro ilimitado e não-manifestado, Brahmam, o Absoluto Imutável, que não tem começo nem fim, (o Tao na filosofia chinesa). Logo que o equilíbrio é perturbado, tem início a recriação do universo. A partir da consciência imutável, o universo, em constante transformação, é mais uma vez criado. Os Gunas participam de uma enorme variedade de combinações e permutações, em que um ou outro predomina sobre os restantes. Isso dá origem à interminável variedade de fenômenos físicos e mentais que formam o mundo que vivenciamos. Os Gunas são às vezes descritos como energias, outras vezes como qualidades ou forças. Eles representam um triângulo de forças simultaneamente opostas e complementares que governam tanto o universo físico quanto nossa personalidade e padrões de pensamento na vida do dia-a-dia, dando origem às nossas realizações ou fracassos, alegrias ou infelicidade, saúde ou doença (ideia dos opostos complementares presente no diagrama de Yin/Yang). Em relação à teoria musical, este triângulo é representado pelas proporções primárias das alturas de uma escala, que é baseada nos primeiros intervalos da série harmônica, os intervalos mais NATURAIS e que geram atrações e repulsões, estes são a oitava e a quinta, o primeiro e segundo intervalo da série harmônica, a quinta sucede a oitava e a dinamiza, gerando movimento (rajas). No que diz respeito à ação, Sattva (equilíbrio) é a força criativa, a essência da forma que precisa se concretizar. Tamas é a inércia, o obstáculo a esta concretização (repouso) .Rajas (movimento) é a energia ou o poder por meio do qual o obstáculo é removido e a forma se manifesta.


Reflexões sobre a matérias e seus estados na antiguidade grega e uma aproximação com outros sistemas filosóficos antigos:

   
     No século VI a.C, numa cultura em que a ciência, filosofia e religião não estavam separadas. Os sábios da escola de Mileto, na Jônia, região da Grécia, não estavam preocupados com distinções entre matéria e espírito. O seu objetivo era descobrir a natureza essencial, ou constituição verdadeira, das coisas a que chamavam "físicas". O termo "físico" provém deste mundo grego e significava, portanto, originariamente, a tentativa de ver a essência das coisas. Este é, obviamente, o objetivo central de todos os místicos, e a filosofia da escola de Mileto teve, de fato, um acentuado perfume místico. Os milésios eram apelidos pelos gregos  posteriores de "hilozoístas", ou "aqueles que concebem a matéria dotada de vida", porque não distinguiam entre animado e inanimado, espirito ou matéria. Com efeito, nem sequer concebiam um mundo de matéria, já que encaravam todas as formas de existência como manifestações da "física", dotada de vida e espiritualidade. Deste modo, declarou Tales estarem todas as coisas animadas por deuses, e Anaximandro viu o universo como uma espécie de organismo sustentado pela respiração cósmica, do mesmo modo que o corpo humano é sustentado pelo ar.
     A visão monística e orgânica dos milésios era muito aproximada à da antiga filosofia indiana e chinesa, e os paralelos com o pensamento oriental são ainda mais fortes na filosofia de Heráclito de Éfeso.  Heráclito ensinou que todas as mudanças no mundo provêm da conjugação dinâmica e cíclica dos opostos, e concebia qualquer par de opostos como uma unidade, A esta unidade, que contêm e transcende todas as forças opostas, chamava o Logos.
A ruptura desta unidade começou com a escola de Eleia, que sustentou um Princípio Divino estável acima dos deuses e dos homens. Este princípio foi inicialmente identificado com a unidade do universo, mas foi encarado como um Deus inteligente e personalizado, que permanece acima do mundo...  Consolidada a ideia da visão entre espírito e matéria, os filósofos concentraram a sua atenção no mundo espiritual, mais que no material, na alma humana e nos problemas éticos. Estas questões ocupariam o pensamento ocidental durante mais de dois mil anos depois do apogeu da ciência e cultura grega nos séculos V e IV a.C. O conhecimento científico da antiguidade foi sistematizado e organizado por Aristóteles, criador do esquema que se tomou a base da visão ocidental do universo por dois mil anos. Mas mesmo Aristóteles acreditava que as questões concernentes à alma humana e à contemplação da perfeição divina eram sinais importantes para as investigações do mundo material. A razão pela qual o modelo aristotélico do universo permaneceu inalterado durante tanto tempo foi precisamente esta falta de interesse no mundo material, bem como o forte apoio da Igreja Cristã, que sustentou, na Idade Média, as teses de Aristóteles. Novos desenvolvimentos da ciência ocidental teriam de esperar até ao Renascimento, quando os homens se começaram a libertar da influência de Aristóteles e da Igreja, bem como a mostrar um renovado interesse na natureza. No fim do século XV, o estudo da natureza foi, pela primeira vez, procurado num verdadeiro espírito científico, e foram efetuadas experiências para testar as ideias teóricas. Por ser este desenvolvimento
Em contraste com a visão mecanicista ocidental, a visão oriental de mundo é "orgânica". Para a mística oriental, todas as coisas e acontecimentos captados  pelos sentidos estão inter-relacionados, conectados, e são, tão-só, aspectos diferentes ou manifestações da mesma realidade última. A nossa tendência para dividir o mundo percepcionado em coisa singulares e separadas, é para nos sentirmos nós próprios como "egos" isolados no mundo, essa tendência é vista pelos orientais como uma ilusão proveniente da nossa mentalidade contabilizadora e categorizante.  Já que movimento e mudança são propriedades essenciais das coisas, as forças causadoras do movimento não estão fora dos objetos, como na visão clássica grega, mas são uma propriedade intrínseca da matéria. Correspondentemente, a imagem oriental do Divino não é a de um regulador que dirige o mundo de cima, mas de um princípio que domina tudo por dentro... (Mais informações podem ser encontradas em 'O Tao da Física' de F. Capra, Capítulo 1).

Concluímos com uma reflexão do filósofo indiano Jiddu Krisnhamurti:

"A música não reside nas notas musicais mas sim no intervalo entre elas! As notas são desprovidas de significado por si mesmas, não é mesmo? Assim também, quando lemos um livro não damos significado completamente nenhum ás palavras. As notas e as palavras são sons desprovidos de sentido; É no intervalo entre as palavras, é no estado de silêncio existente entre as palavras que se capta o significado daquilo que o escritor tentou expressar. Por isso não perca tempo com o aspecto técnico da música.
Para apreciarmos um excerto de música não é absolutamente essencial que tenhamos a capacidade de a interpretar. A compreensão sucede se o espírito estiver silencioso, mas não considere a música como um meio de evasão ou uma droga capaz de incitar ao silêncio; o silêncio sobrevém com naturalidade e sem esforço quando compreende. E a música nasce nesse silêncio. O silêncio é a fonte de toda a criação- esse silêncio primordial que não possui começo nem fim. Esse silêncio eterno está para além de todo o acesso por parte do intelecto." (J. Krisnhamurti)
    
"Nenhum som teme o silêncio que o extingue." (John Cage)


REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Tao da Física, capitulo 1. 1º Edição. Lisboa, 1989)
LAO TSÉ. Tao Te Ching. Tradução e notas de Huberto Rohden. Ed. Martin Claret, 2005.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CINÉTICA MUSICAL



  

   Cinética Musical é o termo referente aos andamentos. Cinética quer dizer simplesmente movimento. Tradicionalmente usamos o termo para nos referir ao pulso predominante durante determinada obra musical. Estes, como se percebe facilmente mesmo por um leigo em música, podem ser lentos, muito lentos, rápidos, moderados ou muito rápidos, e costumam estar definidos (escritos) - direta ou indiretamente - pelo compositor na partitura musical.
Historicamente, tais andamentos foram marcados também por estados emocionais, como se nota por alguns termos oriundos da classificação terminológica clássica italiana, esta tem o "andante" como principal referência. O andamento obedece uma certa periodicidade, podemos aqui fazer uma metáfora corporal: essa periodicidade segue uma correspondência entre as escalas sonoras e as escalas corporais com as quais medimos o tempo. Porque o complexo corpo/mente é um medidor frequencial. Nossa relação com o Universo e a música passa por padrões de pulsações somáticos e psíquicos, no nível somático, temos principalmente o pulso sanguíneo, a respiração e o andar. O termo "andante" está exatamente no meio de um espectro, se consideramos este como uma espécie de escala do pulso, que vai desde os andamentos mais lentos, como o "grave" e o "adágio", passando pelos andamentos medianos (moderado, andantino) até os muito rápidos como allegro e presto, que consistiria num estado de espírito mais 'agitado'. O termo "allegro", escrito por vezes no início da partitura quer dizer simplesmente "alegre", algo que seja mais rápido que um natural andamento da marcha do ser-humano em um caminhar equilibrado (andante). Segundo o professor José M. Wisnik: um teórico do século XVIII,  sugeriria que a unidade prática do ritmo musical, o padrão regular de todos os andamentos, seria "o pulso de uma pessoa de bom humor, fogosa e leve, à tarde." (citado do livro 'O Som e o Sentido, p. 17).
      Assim, concluímos que  não há uma precisão metronômica sobre cada andamento, até porque  isso foi e continua sendo uma construção de cada contexto e épocas históricas distintas, ou seja, tudo isso é relativo, tendo como absoluto somente a ideia de PULSO, que permeia toda história das músicas no tempo e na história da humanidade, tanto no mundo ocidental, quanto oriental, nas suas mais variáveis formas e culturas. Vale ressaltar que o metrônomo é uma invenção do início do século XIX, e é uma forma de 'mecanização' do tempo. A ideia de pulso já pode ser encontrada em tratados gregos antigos sobre música, assim como os termos 'teoria' e 'harmonia', que herdamos também do pensamento grego. Pitágoras foi um dos pioneiros a teorizar sobre o pulso, assim como seus desdobramentos e consequentemente criar uma ideia de FREQUÊNCIA recorrente, que seguindo uma lógica de PROPORÇÕES teorizaria o que desembocou na questão da Escala Pentatônica, uma escala seguindo a lógica harmônica do ciclo de quintas, é considerada 'primitiva' e ontológica, é encontrada em praticamente todas as culturas musicais por todo o mundo, desde a China e Japão antigos, na música tradicional indiana, nos tambores da África e no canto medieval do Ocidente cristão. (Aprofundaremos o tema em outro tópico sobre a escala pentatônica e sua relação com distintas culturas).
Mesmo não havendo uma precisão metronômica em relação aos andamentos, que é algo um tanto subjetivo e variável na história, há certo consenso entre os músicos ocidentais e os livros de Teoria Musical, que costumam assim dividi-los:

LENTOS: grave, largo e adágio - 40 a 60 BPM (batimentos por minuto com semínima como referência de unidade de pulso)
MÉDIOS: Andante, andantino, moderato e alegretto (60 a 120 BPM)
RÁPIDOS: allegro, vivace, presto e prestíssimo (120 a 210 BPM)


REFERÊNCIAS: 

WISNIK, José M. O Som e o Sentido. Companhia das Letras, 1989.
MED, Bohumil. Teoria da Música. 3ª Edição. MusiMed.