segunda-feira, 7 de setembro de 2015

                        HINO DA INDEPENDÊNCIA



                                          (Pintura em que D. Pedro I realiza execução da peça musical dedicada ao Hino da Independência)
                                                                                    

     Se a arte imita a vida, podemos notar que a história do Hino da Independência foi tão marcada de improviso como a ocasião em que o príncipe regente oficializou o fim dos vínculos que ligavam Brasil a Portugal. No começo do século XIX, o artista, político e livreiro Evaristo da Veiga escreveu os versos de um poema que intitulou como “Hino Constitucional Brasiliense”. Em pouco tempo, os versos ganharam destaque na corte e foram musicados pelo maestro Marcos Antônio da Fonseca Portugal (1760-1830).
     Aluno do maestro, Dom Pedro I já manifestava um grande entusiasmo pelo ramo da música e, após a proclamação da independência, decidiu compor uma nova melodia para a letra musicada por Marcos Antônio. Por meio dessa modificação, tínhamos a oficialização do Hino da Independência. O feito do governante acabou ganhando tanto destaque que, durante alguns anos, Dom Pedro I foi dado como autor exclusivo da letra e da música do hino.
     Abdicando do governo imperial em 1831, observamos que o “Hino da Independência” acabou perdendo prestígio na condição de símbolo nacional. Afinal de contas, vale lembrar que o governo de Dom Pedro I havia sido marcado por diversos problemas que diminuíram o seu prestígio como imperador. De fato, o “Hino da Independência” ficou mais de um século parado no tempo, não sendo executado em solenidades oficiais ou qualquer outro tipo de acontecimento oficial.
     No ano de 1922, data que marcava a comemoração do centenário da independência, o hino foi novamente executado com a melodia criada pelo maestro Marcos Antônio. Somente na década de 1930, graças à ação do ministro Gustavo Capanema, que o Hino da Independência foi finalmente regulamentado em sua forma e autoria. Contando com a ajuda do maestro Heitor Villa-Lobos, a melodia composta por D. Pedro I foi dada como a única a ser utilizada na execução do referido hino.
 

Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.

(FONTE: http://www.brasilescola.com/historiab/hinodaindependencia.htm)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Som e Silêncio: Considerações Metafísicas





      O som está em todo Universo! Há quem diga que o silêncio não existe, acrescento que os sons também só existem virtualmente. A seguir, algumas considerações sobre a natureza do som...
Sabemos que som é onda, que os corpos vibram e transmitem sua vibração para o ar (atmosfera). O ouvido humano capta e transmite os sinais de vibração ao cérebro, este interpreta e lhe dá SENTIDO.
     Voltamos aqui a ideia de PERIODICIDADE, desta vez não ligada aos andamentos, pois para que possamos ouvir o que chamamos de nota musical, é necessário que o ouvido ouça uma frequência regular, diferente do que o ouvido interpreta como RUÍDO ou SILÊNCIO. Isto quer dizer que o som é produto de uma sequência rapidíssima e praticamente imperceptível de impulsões e repousos (lógica de propagação de uma onda qualquer). O que ouvimos é a DENSIFICAÇÃO de de um padrão de movimento, ou seja, movimento do ar através da matéria. Desta forma, compreendemos que cada som tem sua própria forma e desenho, que são oscilantes. Isso permite pensarmos o som com um modelo de ESSÊNCIA UNIVERSAL, tal essência está presente em todas culturas musicais e é regida pelo movimento permanente. Podemos aqui fazer um devaneio sobre essa essência: na Bíblia é narrada uma versão da criação do mundo segundo o qual foi criado a partir do VERBO (som primordial) e o verbo era Deus e o verbo (logos) fez-se carne, etc... Nas narrativas antigas da mitologia hindu, o mundo foi criado a partir de um único som (OM), uma frequência inicial que a partir dela todos os outros sons e coisas existentes no universo foram criados sucessivamente (mesma ideia da série harmônica em que as escalas musicais são baseadas). Os indianos pensam a criação do Universo a partir da dança do deus Shiva, um deus que destrói, para que se inicie um novo ciclo da criação, Shiva é um dos aspectos da manifestação do Criador (Brahma). Na China antiga, a ideia do movimento permanente é descrita no círculo do Tao, também conhecido como diagrama de Tei-Gi, este é um círculo incolor e representa o vácuo, ou a tese do Absoluto, dentro contêm os oposto Yang e Yin, tais termos podem ser traduzidos livremente como movimento e repouso, masculino/feminino, som/silêncio, etc.. enfim todos os aspectos da natureza, em suas mais diversas manifestações: matéria e energia em seus estados opostos e ao mesmo tempo COMPLEMENTARES, mesma ideia do DEVIR presente no discurso dos gregos pré-socráticos. No milenar sistema filosófico Yoga, temos uma definição parecida sobre os estados da matéria: os três 'Gunas'  - Sattva, Rajas e Tamas: equilíbrio, movimento e repouso ou inércia - são considerados como as qualidades fundamentais da natureza. Para podermos compreender isso plenamente, temos de examinar a interpretação hindu da criação e da dissolução do universo. Diz-se que de tempos em tempos o universo se dissolve e depois é recriado. Quando ele está em sua fase não-definida, não manifestada, ele permanece em um estado latente no decorrer de um certo período. Durante este tempo, os Gunas encontram-se em um estado de absoluto equilíbrio, e a natureza material, não se manifesta. Enquanto os Gunas permanecem não-definidos, continua indefinido e o universo existe apenas em um estado potencial. Tudo que existe é consciência, o Ser Puro ilimitado e não-manifestado, Brahmam, o Absoluto Imutável, que não tem começo nem fim, (o Tao na filosofia chinesa). Logo que o equilíbrio é perturbado, tem início a recriação do universo. A partir da consciência imutável, o universo, em constante transformação, é mais uma vez criado. Os Gunas participam de uma enorme variedade de combinações e permutações, em que um ou outro predomina sobre os restantes. Isso dá origem à interminável variedade de fenômenos físicos e mentais que formam o mundo que vivenciamos. Os Gunas são às vezes descritos como energias, outras vezes como qualidades ou forças. Eles representam um triângulo de forças simultaneamente opostas e complementares que governam tanto o universo físico quanto nossa personalidade e padrões de pensamento na vida do dia-a-dia, dando origem às nossas realizações ou fracassos, alegrias ou infelicidade, saúde ou doença (ideia dos opostos complementares presente no diagrama de Yin/Yang). Em relação à teoria musical, este triângulo é representado pelas proporções primárias das alturas de uma escala, que é baseada nos primeiros intervalos da série harmônica, os intervalos mais NATURAIS e que geram atrações e repulsões, estes são a oitava e a quinta, o primeiro e segundo intervalo da série harmônica, a quinta sucede a oitava e a dinamiza, gerando movimento (rajas). No que diz respeito à ação, Sattva (equilíbrio) é a força criativa, a essência da forma que precisa se concretizar. Tamas é a inércia, o obstáculo a esta concretização (repouso) .Rajas (movimento) é a energia ou o poder por meio do qual o obstáculo é removido e a forma se manifesta.


Reflexões sobre a matérias e seus estados na antiguidade grega e uma aproximação com outros sistemas filosóficos antigos:

   
     No século VI a.C, numa cultura em que a ciência, filosofia e religião não estavam separadas. Os sábios da escola de Mileto, na Jônia, região da Grécia, não estavam preocupados com distinções entre matéria e espírito. O seu objetivo era descobrir a natureza essencial, ou constituição verdadeira, das coisas a que chamavam "físicas". O termo "físico" provém deste mundo grego e significava, portanto, originariamente, a tentativa de ver a essência das coisas. Este é, obviamente, o objetivo central de todos os místicos, e a filosofia da escola de Mileto teve, de fato, um acentuado perfume místico. Os milésios eram apelidos pelos gregos  posteriores de "hilozoístas", ou "aqueles que concebem a matéria dotada de vida", porque não distinguiam entre animado e inanimado, espirito ou matéria. Com efeito, nem sequer concebiam um mundo de matéria, já que encaravam todas as formas de existência como manifestações da "física", dotada de vida e espiritualidade. Deste modo, declarou Tales estarem todas as coisas animadas por deuses, e Anaximandro viu o universo como uma espécie de organismo sustentado pela respiração cósmica, do mesmo modo que o corpo humano é sustentado pelo ar.
     A visão monística e orgânica dos milésios era muito aproximada à da antiga filosofia indiana e chinesa, e os paralelos com o pensamento oriental são ainda mais fortes na filosofia de Heráclito de Éfeso.  Heráclito ensinou que todas as mudanças no mundo provêm da conjugação dinâmica e cíclica dos opostos, e concebia qualquer par de opostos como uma unidade, A esta unidade, que contêm e transcende todas as forças opostas, chamava o Logos.
A ruptura desta unidade começou com a escola de Eleia, que sustentou um Princípio Divino estável acima dos deuses e dos homens. Este princípio foi inicialmente identificado com a unidade do universo, mas foi encarado como um Deus inteligente e personalizado, que permanece acima do mundo...  Consolidada a ideia da visão entre espírito e matéria, os filósofos concentraram a sua atenção no mundo espiritual, mais que no material, na alma humana e nos problemas éticos. Estas questões ocupariam o pensamento ocidental durante mais de dois mil anos depois do apogeu da ciência e cultura grega nos séculos V e IV a.C. O conhecimento científico da antiguidade foi sistematizado e organizado por Aristóteles, criador do esquema que se tomou a base da visão ocidental do universo por dois mil anos. Mas mesmo Aristóteles acreditava que as questões concernentes à alma humana e à contemplação da perfeição divina eram sinais importantes para as investigações do mundo material. A razão pela qual o modelo aristotélico do universo permaneceu inalterado durante tanto tempo foi precisamente esta falta de interesse no mundo material, bem como o forte apoio da Igreja Cristã, que sustentou, na Idade Média, as teses de Aristóteles. Novos desenvolvimentos da ciência ocidental teriam de esperar até ao Renascimento, quando os homens se começaram a libertar da influência de Aristóteles e da Igreja, bem como a mostrar um renovado interesse na natureza. No fim do século XV, o estudo da natureza foi, pela primeira vez, procurado num verdadeiro espírito científico, e foram efetuadas experiências para testar as ideias teóricas. Por ser este desenvolvimento
Em contraste com a visão mecanicista ocidental, a visão oriental de mundo é "orgânica". Para a mística oriental, todas as coisas e acontecimentos captados  pelos sentidos estão inter-relacionados, conectados, e são, tão-só, aspectos diferentes ou manifestações da mesma realidade última. A nossa tendência para dividir o mundo percepcionado em coisa singulares e separadas, é para nos sentirmos nós próprios como "egos" isolados no mundo, essa tendência é vista pelos orientais como uma ilusão proveniente da nossa mentalidade contabilizadora e categorizante.  Já que movimento e mudança são propriedades essenciais das coisas, as forças causadoras do movimento não estão fora dos objetos, como na visão clássica grega, mas são uma propriedade intrínseca da matéria. Correspondentemente, a imagem oriental do Divino não é a de um regulador que dirige o mundo de cima, mas de um princípio que domina tudo por dentro... (Mais informações podem ser encontradas em 'O Tao da Física' de F. Capra, Capítulo 1).

Concluímos com uma reflexão do filósofo indiano Jiddu Krisnhamurti:

"A música não reside nas notas musicais mas sim no intervalo entre elas! As notas são desprovidas de significado por si mesmas, não é mesmo? Assim também, quando lemos um livro não damos significado completamente nenhum ás palavras. As notas e as palavras são sons desprovidos de sentido; É no intervalo entre as palavras, é no estado de silêncio existente entre as palavras que se capta o significado daquilo que o escritor tentou expressar. Por isso não perca tempo com o aspecto técnico da música.
Para apreciarmos um excerto de música não é absolutamente essencial que tenhamos a capacidade de a interpretar. A compreensão sucede se o espírito estiver silencioso, mas não considere a música como um meio de evasão ou uma droga capaz de incitar ao silêncio; o silêncio sobrevém com naturalidade e sem esforço quando compreende. E a música nasce nesse silêncio. O silêncio é a fonte de toda a criação- esse silêncio primordial que não possui começo nem fim. Esse silêncio eterno está para além de todo o acesso por parte do intelecto." (J. Krisnhamurti)
    
"Nenhum som teme o silêncio que o extingue." (John Cage)


REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Tao da Física, capitulo 1. 1º Edição. Lisboa, 1989)
LAO TSÉ. Tao Te Ching. Tradução e notas de Huberto Rohden. Ed. Martin Claret, 2005.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CINÉTICA MUSICAL



  

   Cinética Musical é o termo referente aos andamentos. Cinética quer dizer simplesmente movimento. Tradicionalmente usamos o termo para nos referir ao pulso predominante durante determinada obra musical. Estes, como se percebe facilmente mesmo por um leigo em música, podem ser lentos, muito lentos, rápidos, moderados ou muito rápidos, e costumam estar definidos (escritos) - direta ou indiretamente - pelo compositor na partitura musical.
Historicamente, tais andamentos foram marcados também por estados emocionais, como se nota por alguns termos oriundos da classificação terminológica clássica italiana, esta tem o "andante" como principal referência. O andamento obedece uma certa periodicidade, podemos aqui fazer uma metáfora corporal: essa periodicidade segue uma correspondência entre as escalas sonoras e as escalas corporais com as quais medimos o tempo. Porque o complexo corpo/mente é um medidor frequencial. Nossa relação com o Universo e a música passa por padrões de pulsações somáticos e psíquicos, no nível somático, temos principalmente o pulso sanguíneo, a respiração e o andar. O termo "andante" está exatamente no meio de um espectro, se consideramos este como uma espécie de escala do pulso, que vai desde os andamentos mais lentos, como o "grave" e o "adágio", passando pelos andamentos medianos (moderado, andantino) até os muito rápidos como allegro e presto, que consistiria num estado de espírito mais 'agitado'. O termo "allegro", escrito por vezes no início da partitura quer dizer simplesmente "alegre", algo que seja mais rápido que um natural andamento da marcha do ser-humano em um caminhar equilibrado (andante). Segundo o professor José M. Wisnik: um teórico do século XVIII,  sugeriria que a unidade prática do ritmo musical, o padrão regular de todos os andamentos, seria "o pulso de uma pessoa de bom humor, fogosa e leve, à tarde." (citado do livro 'O Som e o Sentido, p. 17).
      Assim, concluímos que  não há uma precisão metronômica sobre cada andamento, até porque  isso foi e continua sendo uma construção de cada contexto e épocas históricas distintas, ou seja, tudo isso é relativo, tendo como absoluto somente a ideia de PULSO, que permeia toda história das músicas no tempo e na história da humanidade, tanto no mundo ocidental, quanto oriental, nas suas mais variáveis formas e culturas. Vale ressaltar que o metrônomo é uma invenção do início do século XIX, e é uma forma de 'mecanização' do tempo. A ideia de pulso já pode ser encontrada em tratados gregos antigos sobre música, assim como os termos 'teoria' e 'harmonia', que herdamos também do pensamento grego. Pitágoras foi um dos pioneiros a teorizar sobre o pulso, assim como seus desdobramentos e consequentemente criar uma ideia de FREQUÊNCIA recorrente, que seguindo uma lógica de PROPORÇÕES teorizaria o que desembocou na questão da Escala Pentatônica, uma escala seguindo a lógica harmônica do ciclo de quintas, é considerada 'primitiva' e ontológica, é encontrada em praticamente todas as culturas musicais por todo o mundo, desde a China e Japão antigos, na música tradicional indiana, nos tambores da África e no canto medieval do Ocidente cristão. (Aprofundaremos o tema em outro tópico sobre a escala pentatônica e sua relação com distintas culturas).
Mesmo não havendo uma precisão metronômica em relação aos andamentos, que é algo um tanto subjetivo e variável na história, há certo consenso entre os músicos ocidentais e os livros de Teoria Musical, que costumam assim dividi-los:

LENTOS: grave, largo e adágio - 40 a 60 BPM (batimentos por minuto com semínima como referência de unidade de pulso)
MÉDIOS: Andante, andantino, moderato e alegretto (60 a 120 BPM)
RÁPIDOS: allegro, vivace, presto e prestíssimo (120 a 210 BPM)


REFERÊNCIAS: 

WISNIK, José M. O Som e o Sentido. Companhia das Letras, 1989.
MED, Bohumil. Teoria da Música. 3ª Edição. MusiMed.